Comunicação verdadeira na família

Vannúzia Leal Andrade Peres*

Quem tem participado do atual debate sobre o tema da família, dentro ou além dos muros da academia, tem provavelmente percebido a explosão de interesses na comunicação familiar e na teorização sobre ela.

A nossa via de acesso ao tema tem sido o interesse e a necessidade que geramos de produzir conhecimento sobre processos singulares de desenvolvimento humano no espaço social familiar (Peres, 2005, 2007). Reconhecemos a importância da comunicação autêntica na família, isto é, da comunicação verdadeira e sua mediação no desenvolvimento da qualidade das relações entre seus membros.

O que vem a ser essa comunicação? Como a entendemos? Primeiro: é uma comunicação inserida nas experiências da família, no clima afetivo-emocional que ela gera no dia-a-dia de suas relações. Na nossa opinião, o valor da comunicação não reside apenas na informação ou no intercambio de idéias que ela propicia, mas na possibilidade do sujeito expressar a sua singularidade, definir-se ao entrar em contato com a expressão singular do outro, da forma mais profunda possível, realizando uma comunicação intersubjetiva.

A intersubjetividade, na visão de levy Moreno (1983), autor de orientação humanista, pode ser entendida como o sentir recíproco de uma pessoa na outra ou ainda como o que ele denominou de tele, a sensação que se tem das coisas verdadeiras do outro, uma forma de comunicação em que a profundidade da vida de um e do outro é igualmente revelada.

Matusov (1996), em uma outra direção, a histórico-cultural, propõe no processo intersubjetivo não somente o compartilhar daquilo que se tem em comum, mas também o confronto de idéias e de emoções contraditórias.

Concordamos com a proposta de Matusov. Nos últimos cinco anos vimos percebendo a necessidade de cônjuges e de pais e filhos confrontarem suas diferentes necessidades e motivações para a vida em família. Entendemos a contradição das idéias e das emoções como elemento que não deve ser suprimido do espaço social familiar, mas confrontado e superado. Dito de outra forma, para que o casal e pais e filhos possam experimentar uma relação autêntica entre eles, ou seja, conhecerem-se de fato e valorizarem-se mutuamente, é preciso enfrentar a tensão que as contradições geram no espaço familiar. Ao contrário de Levy Moreno consideramos que o compartilhar nem sempre é suficiente, sendo imprescindível a expressão verdadeira do sujeito como forma de afirmar sua singularidade na família.

A nossa suposição é de que a tensão gerada no espaço social familiar, implicada com as contradições entre os diferentes membros, é constitutiva dos saltos qualitativos produzidos por eles em seus processos de desenvolvimento. Entretanto, no trabalho sociopsicoeducativo com grupos interfamiliares tenho visto que muitas famílias necessitam avaliar como elas lidam com as contradições, especialmente entre pais e filhos adolescentes. Nesse espaço pode haver uma variedade de conflitos, de luta, de compromissos ou não. Muitas vezes não conseguem realizar uma comunicação autêntica entre eles, com diferentes conseqüências para seu desenvolvimento.

Poderia dar vários exemplos de como nos processos terapêuticos com famílias pode-se perceber dificuldades de pais e filhos realizarem uma comunicação autêntica e extensas e múltiplas possibilidades de mudança não devidamente reconhecidas por eles. Ora, não há relacionamentos que não passem por crises que precisem ser enfrentadas de maneira aberta, corajosa e verdadeira, dando-se visibilidade às intensidades variáveis que elas podem assumir no desenvolvimento sócio-afetivo e relacional de cada um.

Nesse sentido, nos perguntamos: o que fazem as famílias atuais nos seus relacionamentos? Como são seus discursos? Que verdades eles ocultam?

Para Deleuze (2000, p. 127), a verdade é da ordem da produção da existência e não da imaginação, é algo que existe e que implica “uma ética ou um conjunto de regras facultativas que avaliam o que fazemos, o que dizemos (...)”.

Deleuze Chama a atenção para a importância de “modos de existência” produzidos pelo sujeito, com seu entendimento, sua vontade, sua imaginação, sua criação mediante dificuldades ou impossibilidades. Então por que não reconhecer que é o sujeito que constitui a verdade e é por ela constituído? Não seria nas relações cotidianas das famílias concretas que os sujeitos constituem as verdades e se associam a elas para o desenvolvimento da qualidade de sua convivência?

São essas e outras questões com as quais terapeutas de casais e famílias encontram-se muitas vezes envolvidos. Mas o que podemos esperar dos modos de vida familiar produzidos atualmente? Devemos nos preocupar sobremaneira com aqueles que não permitem processos e mecanismos de constituição da verdade no sistema comunicacional. Este pode ser o caso dos modos de vida constituídos por alguns casais divorciados, cujos filhos nem sempre tem sido respeitados em suas necessidades afetivas, construindo-se para eles um vazio dessa dimensão.

Não é incomum encontrar nesse cenário as proibições apontadas por Auloos (2003) e a produção de estilos de comunicação e de regras de convivência cada vez mais rígidos. Regras do que se deve ou não revelar sobre o pai ou sobre a mãe, o que geralmente causa muito sofrimento para os filhos. Nessa situação, não é incomum o filho assumir a representação do pai, daquilo que lhe é dito sobre ele e não a verdade, quando, então, como diz González Rey (2007), a “mentira” assume um caráter simbólico na organização do sistema familiar e na manutenção da sua patologia.

Então perguntamos: por que não a comunicação verdadeira na família?

(outubro/2009)


*Vannúzia Leal Andrade Peres é docente do curso de Psicologia da PUC Goiás, doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professora e coordenadora do Curso de Pós Graduação Lato Sensu do Centro de Atendimento e Estudos em Psicodrama

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Referências:
Ausloos (2003) A Competência das famílias: tempo, caos, processo. J. Lisboa, Trad. Lisboa: CLIMEPSI.

Deleuze, G. (2000). Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. Sãoo Paulo: Ed. 34.

González Rey, F. L. (2007). Psicoterapia, Subjetividade e Pós Modernidade, São Paulo: Thonsom.

Levy Moreno, J. L. (1992). Quem sobreviverá? Fundamentos da Sociometria, Psicoterapia de Grupo e Sociodrama. Goiânia: Dimensão. (originalmente publicado em 1932).

Matusov. E. (1996). Itersubjectivity Without Agreement. In Mind, Culture, and Activity. V. 3. Nº 1. PP. 25-45.

Peres, V. L. A. (2005). O Estudo da Subjetividade na Família. Em Fernando González Rey (Org). Subjetividade, Complexidade e Pesquisa em Psicologia (pp. 311-333). São Paulo: Thonsom.

Peres, V. L. A. (2007). Metodologia de Ação/Reflexão/Ação: Entrelaçamento de Concepções Histórico-Culturais e Socionômicas. In: Revista brasileira de Psicodrama. Vol. 15. Número 1. Ano 2007.